Category Archives: poéticas da memória

Peles de bambu, performances de imagens

 

 

2014-12-26 10.03.02

Sempre que caminho pela trilha do Bosque Areião, em Goiânia, olho o bambuzal. São gigantes seres verdes que se movem com o vento, em direção ao céu. Os bambus são tatuados com uma camada de peles de rabiscos, letras e declarações de amor. São tatuagens feitas com ponta de faca para deixar cicatrizes de escritos, registros, marcas, permanências, grafites, micro narrativas. Costuram tempos, orientações sexuais, modelos de relações, desejos.  “Eu te amo”, “Thi e Sue e Kar” (com coração), “Sandro e Lelê, L’amore”, “Patrícia e Tatá”, “Castan, Aiasa 19/09/2014”, “Gabi 13/07/2010”.

As artes complexas, tais como o teatro, além de serem interdisciplinares em sua carne, cerne e constituição, no contemporâneo participam de uma contaminação ainda mais potente com o mundo. Os bambus do bosque assoviam, com as imagens em seus troncos vivos, que um dia, pessoas estiveram ali e deixaram seus vestígios de amor. Desenharam seus afetos de amores e dores. As imagens são performáticas, pois presentificam e atualizam o acontecimento do encontro de pessoas que estiveram naquele lugar um dia e deixaram seus afetos cravados. Os bambus são vivos, continuam a crescer e modificam-se a cada momento, ou seja, está em curso. Assim como as imagens também são vivas, têm vida de acontecimento e de natureza que se move na paisagem conectada às pessoas e sensações.

As imagens impressas nos troncos falam que as capacidades da produtividade humana estão ligadas ao viver e às sensações. As criações e labores que encostam no cotidiano, são invenções consteladas aos produtos da criação humana historicamente ligadas às artes e também à criação de estruturas éticas, sociais, políticas, cientificas e tecnológicas.

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Às vezes, pelas tardes, uma face nos observa do fundo de um espelho

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Na calçada da Avenida Circular, perto do mercado, eu a vi!… Caminhava vagarosamente com seu carrinho cheio de miudezas coloridas, objetos e flores formando uma cenografia móvel, um carro alegórico, uma plataforma de parada de rua, uma casa ambulante. Por cima, estava o cartaz do filme O Hobbit. Ela vestia uma roupa escura, com uma saia longa, que lembrava a roupa indiana, cigana e latino americana. Tinha pulseiras nos dois braços, dos punhos até os cotovelos e mil colares no pescoço. Os cabelos pretos tinham tranças miúdas e por cima, um boné.

Depois de conversar um pouco, perguntei qual era o seu nome, ela disse que não podia me dizer, porque estava trabalhando disfarçada para a Polícia Federal. Imediatamente sacou de uma apostila de concurso para Polícia Federal muito antiga e encardida, provavelmente recolhida como todos os objetos do carrinho. Disse que tinha estudado muito para ser da polícia, tinha cursado universidade e, inclusive, havia estudado muita tarologia.

E foi embora, empurrando o carrinho, andando devagar e cadenciado. Eu fiquei. Na beira da calçada, queria agarrar a sensação da fobia que as pessoas sentem pelos nômades, andarilhos, ambulantes, ciganos, circenses, atores. Mas só consegui mesmo, ficar parada.

O título deste texto é um trecho de Arte Poética / Jorge L. Borges

Foto: Rosi Martins

bem na hora, revoou um beija-flor

2013-12-19 16.12.56

A água salgada que derramo não lava a dor da sua falta. Walderes, meu amigo, meu querido, meu amor, meu flor de jabuticaba, eu não estava preparada. Eu queria mais da sua presença. Da sua voz. Sua doçura. Sua gentileza. Sua graça. Mas em vez disso, seu corpo se transformou em pedra e ficou dentro de uma caixa de chumbo. Mas justo nesta hora, revoou um beija-flor por toda a sala, trazendo uma lufada de vento em nosso rosto salgado.  Agora, os girassóis, suas flores queridas, estão um pouco dobrados, mas eles se movem o tempo todo.