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Às vezes, pelas tardes, uma face nos observa do fundo de um espelho

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Na calçada da Avenida Circular, perto do mercado, eu a vi!… Caminhava vagarosamente com seu carrinho cheio de miudezas coloridas, objetos e flores formando uma cenografia móvel, um carro alegórico, uma plataforma de parada de rua, uma casa ambulante. Por cima, estava o cartaz do filme O Hobbit. Ela vestia uma roupa escura, com uma saia longa, que lembrava a roupa indiana, cigana e latino americana. Tinha pulseiras nos dois braços, dos punhos até os cotovelos e mil colares no pescoço. Os cabelos pretos tinham tranças miúdas e por cima, um boné.

Depois de conversar um pouco, perguntei qual era o seu nome, ela disse que não podia me dizer, porque estava trabalhando disfarçada para a Polícia Federal. Imediatamente sacou de uma apostila de concurso para Polícia Federal muito antiga e encardida, provavelmente recolhida como todos os objetos do carrinho. Disse que tinha estudado muito para ser da polícia, tinha cursado universidade e, inclusive, havia estudado muita tarologia.

E foi embora, empurrando o carrinho, andando devagar e cadenciado. Eu fiquei. Na beira da calçada, queria agarrar a sensação da fobia que as pessoas sentem pelos nômades, andarilhos, ambulantes, ciganos, circenses, atores. Mas só consegui mesmo, ficar parada.

O título deste texto é um trecho de Arte Poética / Jorge L. Borges

Foto: Rosi Martins

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