Monthly Archives: November 2013

rua em carne viva

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a rua e eu, feitas em carne e pedra nos ossos do ofício de caminhar. minha pele em dobras nas esquinas. músculos arredondados nas curvas do cruzamento. cabelos ao vento no meio fio.  atravessamentos de avenidas viscerais. pés concretos tocam calçadas, enquanto tijolos de pensamentos são demolidos. vermelho: estou sozinha na ilha. amarelo: espero duvidando. verde: depressa para alcançar. olhos lambem texturas, trincados, muros e chapiscos. fibras, ranhuras, desenhos, ruínas, sobrevivências. amanhã caminharei pelo mesmo percurso, mas a rua não será a mesma, nem eu

fotos Rosi Martins

açudes, ofélias e açucenas

1açudes 2012-12-23 17.56.33 (2)

3Dica com filtro

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Imagens: Bosque areião , A rainha do mundo e a serpente do rio, Nyx, a noite

Entre os perdimentos que me fazem, o açude é um desses abismos de forças poéticas e dramáticas. Pequeno lago formado em uma nascente, é arsenal de plantas, flores, lambaris, piabas, traíras, bagres, girinos, minhocas, sucuris, saracuras. Água parada azulada escura, sombria, opaca. Debaixo de galhos de árvores, protegido por folhagens e plantas, em volta do açude, na lama fértil, entre folhas podres, musgos, lodos e raízes, crescem inhames, taiobas, plantas aquáticas que flutuam. Nos barrancos, touceiras de uma flor branca com folhagem grande verde escuro, parecida com açucena, chamada brasileira, flor de são josé ou lírio do brejo. Estas flores eram levadas aos altares de reza e casamentos, depositadas enfeitando os singelos oratórios e também os velórios nos ornamentos dos caixões. Frágil, com perfume delicioso e inesquecível, mas, para mim, também associado ao cheiro de velas queimando…

Touceiras de contas de lágrimas ou lágrimas de nossa senhora. Ninféias aquáticas dos jardins de Monet. Açude de fascinação e medo. Água de escuros, mistérios e desconhecidos. Fonte geradora de invenção e caldo caótico. Lar de uiaras e damas da água. A mesma água do açude passa e vai para o monjolo, moinho caseiro com seu calabouço e lugar onde as mulheres da minha infância se suicidavam… mais de uma vez ouvi falar de mulheres que se matavam no calabouço do monjolo, colocavam a cabeça dentro do pilão, soltava o monjolo e a madeira batia na cabeça…o insuportável da vida…mulheres mortas. Ofélias mortas, boiando com suas vestes. Vontade de morte ao olhar a água parada, escura e cheia de mistérios… mirar no espelho das águas é perigoso.

Ofélia com suas vestes molhadas, flutuando na água com capins, madressilvas e ramos de salgueiro. Ofélia recolhia capins e flores miúdas para colocar nos cabelos e roupas formando um buquê de flores banais – baldias, singelas, ralas – tal qual uma criança catando raminhos para brincar ou os andarilhos a ajuntar miudezas para fazer penduricalhos em suas roupas, sacos e buchos.

O vestido de Ofélia a susteve na superfície da água, como se ela fosse uma sereia. Cantava fragmentos de velhas canções, como se tivesse nascido ou habitado neste elemento. Túmulo de lodo e cantos melodiosos. Ofélia desapareceu nas águas. Seres que flutuam mortos ou ofelizados. Seres dormentes, seres que se abandonam e flutuam. Seres que morrem docemente. Na morte, parece que os afogados flutuando, continuam a sonhar. Flutuação pálida. Encantada. Ofelização. Imagem shakespeariana – trechos da fala de Ofélia:

morreu e partiu tendo erva na cabeça e uma pedra nos pés

seu sudário era tão branco como a neve da montanha, era bordado de flores que desceram ao sepulcro

Ofélia, ornada de grinaldas fantásticas de urtigas e margaridas

A voz sussurrante subia na água, a água vinha ao encontro. Cena do filme Elena, com as mulheres na água. Além de vida, a imaginação da infelicidade e da morte encontram na matéria da água uma imagem material para habitar.